Tratamento de acretismo placentário
O acretismo placentário ocorre quando, durante uma gestação, há invasão de tecido coriônico além da decídua. Este tecido coriônico prolifera normalmente durante a gestação e é responsável por realizar a comunicação de vasos sanguíneos e linfáticos entre a mãe e o feto. O avanço deste tecido além da decídua faz com que vasos anômalos se grudem na parede do útero. Esta condição causa maior predisposição à ocorrência de sangramentos e hematomas coriônicos durante a gestação e abortos. Além disso, pode representar um grande risco à vida do feto e da mãe ao final da gestação, uma vez que pode provocar fragilidade da parede do útero, predispondo a maior risco de ruptura uterina, principalmente quando esta não foi reconhecida nos exames ultrassonográficos pré-natais e a paciente é submetida ao parto vaginal. O outro grande temor do acretismo placentário é o sangramento ativo pós-parto. Estes vasos anômalos aderidos à parede do útero comumente se rompem e sangram após o descolamento da placenta e, associado a um estado temporário de disfunção da coagulação que comumente acompanha este período do parto, pode levar a sangramentos incontroláveis que trazem grande risco à vida da mãe.
O acretismo placentário está muito associado a cesáreas prévias e à inserção baixa da placenta. Devido ao alto número de cesáreas realizadas, esta doença vem aumentando a sua incidência progressivamente. Estima-se que o acretismo já tenha atualmente uma incidência de 1 caso para cada 2500 partos.
Na grande maioria das vezes, a paciente permanece assintomática durante toda a gestação e o diagnóstico do acretismo placentário só poderá ser realizado pelas ultrassonografias realizadas no acompanhamento pré-natal. Ao ser identificado o acretismo placentário, uma ressonância magnética deverá ser realizada ainda durante a gestação para detalhar melhor anatomicamente o comprometimento do útero pelo acretismo. De acordo com a extensão e gravidade do comprometimento, o acretismo placentário será classificado em:
– Placenta increta;
– Placenta percreta.
O tratamento do acretismo placentário dependerá do seu reconhecimento e o parto da paciente será sempre considerado de alto risco. O parto sempre que possível deverá ser cesárea. A preparação para o trabalho de parto poderá ocorrer de forma preventiva. Nestes casos, punções arteriais femorais serão realizadas no mesmo dia mais cedo ao parto ou no dia anterior. Cateteres são avançados até o interior das artérias ilíacas internas (estas artérias são as que dão origem às artérias uterinas). Nestes locais serão colocados dois balões, um para cada lado, que permitirão ser insuflados, interrompendo o fluxo sanguíneo para o útero sempre que necessário, durante a cirurgia. Isto permitirá que o cirurgião consiga identificar o local exato do sangramento a fim de cauterizá-lo, preservando inclusive o útero nos casos bem-sucedidos.
Caso não seja possível interromper o sangramento durante o parto, os cateteres previamente instalados já dão acesso rápido às artérias uterinas, que então poderão ser embolizadas por meio de micropartículas ou até mesmo outros agentes embolizantes líquidos como cola ou onyx. Desta forma, a embolização é uma ótima opção de tratamento do acretismo placentário, auxiliando o cirurgião a manter o útero da paciente e reduzindo os riscos de morte fetal e materna durante partos complicados.